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João Marchante na presente exposição de fotografia intitulada Vídeos Privados tem como ponto de partida momentos intimistas da sua videografia (iniciada em 1987). Assim, podemos reconhecer remakes de cenas que na sua origem correspondiam a zonas específicas nas histórias dos seus vídeos e que funcionavam em articulação com o todo. Agora, pelo contrário, observamos uma descontextualização que leva essas acções a transformarem-se em momentos auto-suficientes, pondo em causa a montagem clássica e, logo, a narrativa convencional. 

Tudo isto faz sentido se tivermos em atenção que o artista sentiu necessidade de parar as imagens, num percurso inverso ao habitual nestas andanças. Queremos com isto dizer que, após exactamente dez anos de criação de imagens em movimento, inicia, em 1997, um caminho de produção de peças fotográficas com imagens retiradas do cinema clássico americano (Projecto Azul). Nesta exposição, o autor já ultrapassava a mera apropriação desses fotogramas para os fazer atravessar vários meios através dos quais as imagens saíam formalmente enriquecidas em textura e cor.

No ano seguinte, em Peixe Fora d’Água, parte de imagens videográficas suas, especialmente concebidas e captadas para serem transformadas em fotografias. Será aqui conveniente sublinhar a utilização do vídeo e do polaroid como dois suportes rápidos e imediatos favorecendo o pessoalíssimo  intimismo que sempre  povoou o trabalho do videoartista e fotógrafo.

É aliás logo em Peixe Fora d’Água que vemos claramente a importância da montagem cinematográfica no seu trabalho e detectamos até experiências, agora com imagens fixas, que remetem para Griffith e Eisenstein. 

Na exposição fotográfica imediatamente antes da actual (Noite Americana), o artista mergulhou na História do Cinema, seleccionando, para nos apresentar, uma série de momentos de filmes de culto, supostamente pessoal, que surgem agora como imagens descontextualizadas e reorganizadas em trípticos; fórmula esta de raiz sagrada que, aqui, eleva as imagens a uma categoria místico-mítica. A escolha recai essencialmente sobre fragmentos figurativos, onde rosto  e corpo adquirem uma especial relevância, transportando-nos, assim, para algumas das suas obras em vídeo – Provocação, O Inquérito, Casting – em que a pesquisa na organização espácio-temporal é mais evidente, a par de uma fria capacidade analítica envolta numa superfície quente e sensual.

Ao chegarmos a Vídeos Privados deparamo-nos, portanto, com um universo pessoal habitado por referências cinéfilas, mas também pelas suas próprias imagens, o que nos convoca, pela primeira vez na sua produção artística, para um verdadeiro jogo de identificação e reconhecimento, com o objectivo de colocar cada peça do puzzle no seu lugar, como que num exercício de imagem e montagem em que o olho e a memória são as suas principais armas. Note-se que estas questões sempre estiveram presentes na sua criação fotográfica mas é a primeira vez que imagens suas surgem montadas com imagens do mundo cinematográfico.

Antes de aportarmos aqui, é importante sabermos que João Marchante, a partir de 1993, com From Oporto with Love e Viagem através das Estrelas, iniciou uma nova fase da sua obra em vídeo, procedendo à remontagem de material previamente organizado. É com este ciclo de fragmentação física e reorganização conceptual que redescobre a força criativa da montagem, destruindo o que restava de alguma narrativa clássica no seu trabalho.

Retomando o fio à meada, chegou a hora de referir a actual fase, na qual o artista realiza vídeos que respigam cenas de anteriores filmes seus, agora rodadas de novo como acções isoladas e depuradas, como já fomos revelando no primeiro parágrafo destas linhas.  Estes remakes – se assim se lhes pode chamar – são vídeos em plano-sequência (fórmula muito ao gosto das opções estéticas do autor), que adquirem, por esta via, uma renovada capacidade narrativa, decorrente da força da unidade de espaço, tempo e acção.

E é finalmente destes vídeos feitos fotografias – e montadas (na dupla acepção fílmica e expositiva)  estas com imagens vindas do cinema – que surge a presente exposição Vídeos Privados, onde as personagens femininas, construídas e reveladas por João Marchante, plenas de subliminar tensão erótica, como sempre, voltam também a ter um protagonismo denso e sólido, todo ele feito de complexas camadas, como que acabadas de vir de uma viagem de treze anos de imagens em movimento com constantes desmultiplicações e transmutações físicas e psicológicas.  

Maria de Menezes