Helena gostava de se sentar ao piano a altas horas da noite. As flores tatuadas nos braços, a franja à Louise Brooks, os olhos claros – aqueles olhos que iluminavam a mais escura das noites – a obrigarem a cabeça a um movimento vertical de transcendência, como se, de lá de cima, das alturas, viessem as instruções para a melodia, sempre suave, com que ousava interromper o silêncio nocturno.

Teresa também despontava de noite. Ao seu lado, a Béatrice Dalle, que eu tinha nos píncaros da sensualidade feminina, passaria despercebida. Através de uma câmara escondida num recanto do seu quarto, ganhei o hábito de a observar enquanto preparava as suas saídas nocturnas. Nunca a vi que não fosse pelo olhar que a câmara protegia. E ainda bem, pensava eu, dava para perceber que tinha vindo ao mundo para desgraçar os homens.

Joana vivia no lusco-fusco dos terraços, ali onde cruzam os Estados Unidos da América com a Avenida de Roma. Não era deste tempo, nem deste mundo. Ou tão deste mundo como a Claudia Cardinale a fazer de Angelica no Il Gattopardo do Visconti. Sempre que ia ver o sol a pôr-se para esses lados, lá estava ela, vestido comprido de época, dama de uma corte decadente de costumes, a fingir que não era nada com ela. Como se um pobre coitado como eu pudesse não reparar na sua misteriosa presença, pudesse não ter vontade de se atirar dali para baixo para se tornar tão imortal, tão eterno, quanto ela era.

E a Catarina, que irrompia, deliciosamente perversa, displicentemente atrevida, quando se embaciava o espelho da casa de banho. E este, sei lá por que passe de mágica, virava lâmpada de Aladino à mercê de todas as minhas mais secretas fantasias. Tinha qualquer coisa, também, da Louise, da Béatrice e da Claudia, mas ao mesmo tempo lá estava aquela milionésima parte de diferente de que falava o Kundera, que a distinguia de todas elas e de todas as mulheres belas do universo.

E ainda havia a Maria, a Joana, a Rita, a Marta, a Patrícia e muitas outras que, tal como a Helena, a Teresa, a Joana e a Catarina, talvez nunca tenham existido segundo os cânones da ciência médica. Mas, assim que me foram reveladas pela câmara do João Marchante, tive a certeza de que eram elas as mesmas que me visitavam nas profundezas da noite, nos mais íntimos redutos do meu subconsciente desde os primórdios da minha vida adulta. Nas inconfessáveis fantasias que passaram a habitar, gostava de lhes atribuir nomes de mulheres comuns para delas me sentir mais próximo. E era nesse estimulante limbo entre o real e o virtual, que só o olhar de fotógrafo-cineasta do João tornou possível, que se desfiava toda uma narrativa, todo um imaginário que o crepúsculo fazia ressurgir, noite após noite, para desaparecer sem deixar rasto ao mais leve sinal da luz solar.

Quando o João me honrou com o convite para escrevinhar algumas linhas sobre esta sua Educação Sentimental, ainda procurei convencê-lo de que tinha vindo bater à porta errada, que o seu trabalho mereceria palavras mais sábias e eruditas, que eu, manifestamente, não estaria à altura da sedução que emanava das suas imagens. Fiquei, rapidamente, sem argumentos: como dizia Mestre Cesariny, “afinal o que importa não é a crítica de arte”. Talvez importe, sim, outra coisa, do domínio do indizível, que só as imagens do João conseguem transmitir. Uma espécie de marca imperceptível da memória, de segredo do subconsciente, vindos de tempos distantes, que andavam à procura do filtro que a câmara do João veio, finalmente, desvendar.

Diogo Leote